Culinária
e tradição das refeições
da Semana Santa no Nordeste

Carolina
Leão
Jornalista
Existem práticas
sociais correntes que funcionam como o sustentáculo do passado cultural
da humanidade dando continuidade às atividades e experiências
já realizadas outrora. O que podemos chamar de tradição
é uma forma de perpetuar o passado compondo, assim, o imaginário
cultural de um povo. Símbolos e representações, estórias
e expressões que estão fincados na memória coletiva formando
as identidades nacionais. Estas simplesmente conectam o passado ao presente
por intermédio da arte, dos mitos e costumes.
O escritor pernambucano Gilberto Freyre sintetizou a identidade brasileira
através da inter-relação de três raças -
européia, africana e indígena - e não esqueceu de incluir
as culinárias típicas dessas etnias em sua análise, que
chegou a ser publicada em livro sobre o assunto. Para o pesquisador Mário
Souto Maior não há lugar algum no Brasil que transmita o sentido
de "brasilidade" como a região Nordeste. Em Pernambuco, por
exemplo, desenvolveu-se uma estratégica forma de alimentação
que combina a cultura portuguesa (de ascendência moura) com a influência
dos costumes indígenas e africanos.
Tamanha mesclagem pode ser vista nos banquetes realizados na Semana Santa.
Ao tradicional peixe que faz o jejum dos países cristãos foram
acrescentadas pitadas de condimentos africanos e elementos presentes no cultivo
agrícola indígena na época da colonização
européia. Desse diálogo gastronômico resultaram o Quibebe
e inúmeros pratos feitos com coco, como bredo, feijão e ensopado
de peixe.
Quanto ao surgimento do peixe na tradição culinária da
Quaresma, Mário Souto Maior brinca, nos seus artigos, resgatando o
personagem Bernardino, "que era muito mais comerciante do que católico
e arriscava um palpite com certa reserva: Eu acho que esse negócio
de não comer carne durante a Semana Santa foi invençãozinha
de São Pedro, que era pescador..."
Mas há uma outra versão desenvolvida no mundo das artes plásticas:
na época na qual as escrituras sagradas eram representadas por murais,
vitrais e mosaicos, cujos temas remetiam ao martírio de Jesus Cristo,
a imagem do peixe era usualmente pintada pelos artistas cristãos. A
razão dessa escolha, explicam os historiadores de arte, encontra-se
na própria palavra peixe. Em grego, o vocábulo coincide com
as letras iniciais de cada uma das palavras da expressão Iesous Christos,
Theou Yious, Setor, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador.
Atualmente não se segue à risca as penitências e punições
alimentícias da Semana Santa. Mas houve um tempo no qual eram organizadas
grandes pescarias, para atender à demanda do período, que levavam
barcos e jangadas nas madrugadas ao mar em busca de pescados típicos
do litoral nordestino: traíras, carás, curimatãs, piabas,
crustáceos; peixes nobres das águas mornas, como sirigado, arabaiana
e cioba; camarões de água doce e os guaiamuns das lagoas. As
riquezas naturais da costa atlântica foram responsáveis pela
adaptação das refeições da Quaresma ao paladar
nordestino por intermédio dos temperos, iguarias e ingredientes locais.
O coco, por exemplo, fruto em abundância na região, garantiu
sua participação em inúmeros pratos juntamente com várias
espécies de crustáceos presentes nos rios e manguezais.