Essa fusão de elementos culturais aparentemente diferentes foi capaz de manter um equilíbrio entre a influência de hábitos alimentares tão distintos permitindo, dessa forma, a origem desse tão celebrado sincretismo gastronômico Por isso, quando se fala da comida da Semana Santa no Nordeste deve ser considerada a adequação dos costumes portugueses - os azeites, vinhos e bacalhau- à necessidade que os habitantes locais tinham de "impor" (no sentido de fazer ser aceita) a sua alimentação de subsistência. É nesse momento que entra na história culinária da região, incorporado depois nos rituais da Semana Santa, o purê de jerimum temperado com cebola e salsinha picada, conhecido popularmente como Quibebe.
Os colonizadores quando chegaram ao Brasil trouxeram com eles a abóbora (vocábulo português que eqüivale ao jerimum na língua indígena) para ser cultivada na famosa terra "onde tudo vinga". Mas os índios já vinham plantando e utilizando a abóbora-moranga para a surpresa dos galegos. Há ainda um outro registro da espécie no país. Na primeira metade do século XVI, os portugueses trouxeram, da Guiné, a cucurbita pepo, uma outra variedade do fruto, também, conhecida como Abóbora da Quaresma.
Em alguns Estados do Nordeste, esse prato, além de ser preparado como purê, leva carne-seca desfiada, alho, cebola, salsa e pimenta-do-reino, desconsiderando qualquer preceito religioso. O quibebe é um prato no qual o sincretismo reina absoluto. Antes do registro da preparação dessa espécie de purê no Brasil, a Angola já tinha uma refeição dessa natureza servida com um guisado de peixe, batata-doce e azeite de dendê bem antes de os navios negreiros aportarem na via costeira nordestina. Inclusive, a expressão Quibebe é originária de um dos dialetos africanos.
Já o bredo foi incorporado aos pratos da Semana Santa principalmente por um motivo: das folhas dessa erva são feitos os caldos encorpados de legumes e ensopados que acompanham os frutos do mar permitido no período de abstinência. E foi através dessa tríade, Coco, Quibebe e Bredo, que a cultura gastronômica característica da festa sagrada foi tomando cores, sabores e aromas que dão ao nosso jejum religioso uma identidade específica baseada na diversidade da cultura popular.

Ao tradicional
peixe do jejum
dos países cristãos foram acrescidos
condimentos africanos e agricultura indígena

A presença dos ovos na Páscoa

Nas décadas passadas era comum restringir o uso de carne na Semana Santa. Razão: em homenagem ao martírio de Jesus Cristo proibia-se uma série de atos por serem considerados profanos. Na contemporaneidade, ainda que algumas regiões e tradições mantenham esses atos, é pouco provável que as pessoas sigam à risca as obrigações cristãs. No entanto, o que não faltam nas prateleiras dos supermercados são os ovos de páscoa de chocolate. Embora estejam ligados, hoje, ao consumo, os ovos são carregados de significações místicas em várias religiões.
Os orientais tinham como costume cozinhá-los com beterraba e, após a infusão de ervas como açafrão, embrulhá-los com cascas de cebola. Os egípcios, persas e chineses distribuíam os ovos, que depois de retirados da casca ficavam com desenhos mosqueados, no início da primavera. Para eles, o ovo significa, sobretudo, a origem da vida. O hábito foi adotado, séculos depois, pelos cristãos como símbolo oficial da Páscoa representando a ressurreição da Humanidade.
Os ovos naturais foram utilizados durante alguns séculos pelos católicos, mas com o decorrer dos anos foram substituídos pelos de chocolate. A explicação mais plausível para essa troca foi o início da modernidade e da industrialização em larga escala. Com o surgimento das fábricas de chocolate, em 1830, o uso da guloseima passou a ser uma maneira de aumentar a venda dessas indústrias através dos ovos de Páscoa. Estes, a princípio, eram pouco consumidos e só passaram a ser acessível à maioria das pessoas depois do avanço dos processos industriais, que permitiu uma produção acelerada e diminuição do seu custo.

Receitas e modo de preparo

1. Bredo de Coco
Recomenda-se servi-lo acompanhado de arroz também cozido no leite de coco.

Ingredientes:
· 2 maços de bredo
· 250ml de leite de coco
· 4 tomates
· 1 cebola média picada
· 2 dentes de alho amassados
· Coentro picado
· 2 colheres de sopa de azeite de oliva
· Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Destaque as folhas do bredo, lave-as e leve para escaldar para tirar o visgo. Escorra e reserve. Faça um molho fritando a cebola e o alho no azeite. Junte os tomates e deixe cozinhar até encorpar. Junte o coentro e tempere com sal e pimenta. Acrescente o bredo e deixe cozinhar cerca de 10 minutos. Junte o leite de coco e assim que levantar fervura apague o fogo.

2. Feijão de Coco
O feijão, após cozido, é refogado com os temperos e o leite de coco até formar um creme de consistência leve.

Ingredientes:

· 3 xícaras de feijão rajadinho ou mulatinho cozido e batido no liqüidificador com um pouco do caldo do cozimento
· 1 cebola, 1 tomate, 2 dentes de alho e coentro picadinhos
· 250ml de leite de coco
· Sal e pimenta a gosto
· Azeite de oliva

Modo de preparo:

Refogue bem os temperos no azeite. Junte o feijão, o sal, a pimenta e o leite de coco. Deixe ferver até engrossar como um creme. Sirva bem quente como acompanhamento junto com arroz branco e peixes ou crustáceos.

3. Quibebe
Em Pernambuco esse prato é servido como acompanhamento e entrada de diversas refeições também preparadas com coco.
Ingredientes:

· 1Kg de jerimum (abóbora)
· 1 cebola picadinha
· 2 dentes de alho amassados
· Azeite, sal e pimenta
· 250ml de leite de coco

Modo de preparo:

Refogue a cebola e o alho no azeite. Junte o jerimum e deixe cozinhar até ficar macio. Vá juntando água aos poucos, se necessário, para que não pegue no fundo da panela. Amasse ou passe pelo espremedor ou processador. Volte ao fogo com o leite de coco e deixe ferver mexendo até engrossar. Sirva quente como acompanhamento de peixes e crustáceos.

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